No estado do Maranhão os rituais festivos para o Divino Espírito Santo são conduzidos por mulheres cantando e tocando tamborescaixas -, daí seu nome: Caixeiras do Divino. Embora este nome se relacione ao instrumento que tocam, ser Caixeira pressupõe também saber projetar a voz, cantar afinado, ter capacidade de improviso, conhecer um amplo repertório bem como as seqüências rituais, os mistérios que cercam o universo de sua devoção, esta, inseparável de seus modos de vida.

Estes são alguns atributos pelos quais uma Caixeira é reconhecida, respeitada e aceita entre seus pares, pois há critérios. “Elas tocam Caixa, mais num é assim, uma pessoa pra enfrentá tudo como manda a lei…” diz uma delas, D. Alzira Reis Pires.

Repare que em outras localidades no Brasil, no Arquipélago dos Açores, em partes dos Estados Unidos, e em outros lugares para onde esse culto migrou com os Açorianos, são os homens que conduzem essas celebrações, e apenas um tambor – uma caixa -, integra o grupo de músicos que acompanha a Folia do Divino pelas ruas ou estradas.

E elas tocam em grupo. Há aquelas que lideram a condução dos rituais: São as Caixeiras Régias que têm a seu lado uma Caixeira Mor. As outras ajudam.  Há Caixeiras que ajudam em uma casa e lideram em outras.

As Caixas são tocadas em uníssono. As variações são pequenas, têm lugar certo para acontecer e, geralmente, são executadas pela Caixeira mais experiente.

As Caixeiras cantam a linha melódica principal em uníssono, e algumas delas podem entoar, na repetição, a terça paralela inferior – o que entre as Caixeiras é conhecido como baixão.  Elas conhecem a grande importância do baixão no destaque da melodia, mas esse não é seu único significado. Cantar no Baixão é também cantar compassadamente… Magestaticamente…

A calma do interior das casas ou terreiros, o cotidiano das festas, em que  desempenhavam, quando meninas, a função de Bandeirinhas, foram por muito tempo lugares privilegiados para o aprendizado das Caixeiras. A repetição dos versos que as Caixeiras mais velhas botavam e a audição constante daquela música permitiam a construção de um conhecimento que seria facilmente acessado mais tarde quando começassem a tocar. Elas observam desde muito tempo a realidade de um progressivo desinteresse da maioria das jovens em aprender, e mesmo se aproximar de sua atividade.

As Caixeiras constroem, guardam e transmitem no universo da oralidade esses conhecimentos para muitas gerações de mulheres, desde o século 19. Essa vivência de “mestra a discípula, de boca a ouvido dócil e paciente” que as ensinou a tocar e cantar está profundamente vinculada às finalidades ritualísticas e à devoção a que essa música originalmente se vincula. Sua música cria o clima propiciatório no qual todo o ritual se desenvolve. Tocando quase ininterruptamente durante a festa, elas mantêm aberto o canal de comunicação com o Divino.

No Maranhão, os Cultos Festivos para o Glorioso Espírito Santo fazem parte do calendário religioso dos terreiros de cultos afro-brasileiros e de muitas comunidades remanescentes de quilombos. Ali o poder imortal do Divino é representado por crianças, um Imperador e uma Imperatriz, cada qual com seu Mordomo, e renovado a cada ano com a chegada de outras. Pode também  – como em Alcântara – ter como representante uma menina, uma Imperatriz, em alternância com um menino. Um ano um homem, e no outro uma mulher.

A realidade de um mosaico de matrizes culturais construiu, e mantém, um vasto repertorio simbólico com múltiplas compreensões e respostas para perguntas como: Quem é o Espírito Santo? Como se deve Festejá-lo?  Uma Caixeira, D. Jacy Gomes Serra nos diz:

Levantou o Mastro do Espírito Santo na Quarta-feira da Ascensão, não é? Então, pra nós, ele vem do céu e pousa ali, no Mastaréu!”

O pulsar constante e compassado dos toques na Caixa convida o Divino e todos os participantes a um estar presente. A música cria uma ambiência que conduz a todos os presentes na assistência das festas, a um momento de ordenação interna. Os ciclos rítmicos repetidos continuamente promovem um retorno a um lugar conhecido e repousante. Compassado… A música das Caixeiras dialoga com a Divindade e lidera cada momento do Festejo. Uma grande intimidade se estabelece com essa proximidade. Muitos versos do repertório se referem a ela.

 

Quem é que vem descendo

Pelo fio do retrós?

É Divino Espírito Santo

Pra fazer festa com nós.

 

Marise Barbosa. In: DURANTE, H. e CORREA, L.   De São Luiz a São Luís, 2007 (Livro-CD)