O candomblé é uma religião construída no Brasil a partir da diáspora africana, onde os negros escravizados e trazidos de várias regiões da África ressignificaram seu arsenal simbólico na construção desta religião.

Importante ressaltarmos que inúmeros elementos influenciaram, e ainda influenciam, o desenvolvimento do candomblé no Brasil.

A escravidão, o preconceito, o racismo e o reducionismo construíram, ao longo do tempo, uma cultura religiosa baseada em duas grandes máximas. Uma que busca a “pureza” africana, indícios de um passado mítico que dificilmente será encontrado. Outra que mistura, reconfigura e altera o candomblé, a partir do olhar da diversidade religiosa, incorporando assim, elementos notadamente de outros grupos culturais.

Neste contexto, há uma grande complexidade em definir o que é ou não cultura religiosa negra. O que podemos é tentar definir alguns padrões aplicáveis apenas no estudo das religiões de matriz africana no Brasil.

Um primeiro padrão, quando aceitável, é aquele que divide o candomblé nas chamadas nações. A partir de divisões dos grupos linguísticos yorùbá, fon e bantu e seus espaços geográficos, o candomblé foi diferenciado respectivamente em três macro-nações: kétu, jeje e angola.

Hoje, compreendemos que estas divisões podem ser estabelecidas não só pelos aspectos linguísticos e geográficos, mas também por macro-padrões rituais, estéticos e plásticos, alimentares e performáticos.

Assim como Rodrigues (1935), Carneiro (1936), Bastide (1975), Prandi (1991, 1996), entre outros, estruturam estes grupos em dois grandes troncos.

A nação kétu, é a vertente em que predominam os orixás e ritos de iniciação de origem ioruba. É desta vertente os mais antigos e prestigiados terreiros brasileiros: Ilê Maroiá Lájie – Candomblé do Alaketu (BA-1616), o Ilê Axé Iyá Nassô Oká – Casa Branca do Engenho Velho (BA-1830), Ilê Iyá Omin Axé Iyá Massê – Gantois (BA-1849) e Ilê Axé Opô Afonjá (BA-1910). Outras nações derivam do tronco nagô como: ebâ em Pernambuco, xambá ou xangô em Alagoas e Pernambuco, batuque de nação no Rio Grande do Sul, efã ou ijexá na Bahia.

Por sua vez, a nação angola, de origem banto, objeto deste projeto, privilegia o culto aos inkices, mas adotou muito das práticas iorubanas. O Candomblé de Caboclo também é uma modalidade desta vertente.

Provavelmente é desta nação banto que nasce a umbanda que surge nos anos 30, religião sincrética, pois foi constituída por vários outros tipos de manifestações religiosas como o catolicismo, o kardecismo, bem como influências dos cultos ameríndios e afro-brasileiros.

Antes de chegar à região conhecida como Planalto Paulista, o candomblé migra da Bahia ao Rio de Janeiro e Baixada Santista. O percurso percorrido durante o crescimento desta religião em São Paulo – fenômeno estudado por Concone (1961), Bernardo (1986), Ortiz (1978), Prandi (1991), Silva (1995) entre outros.

 

PEDRO INATOBI NETO