A Congada é uma dança dramática que remete à coroação de reis africanos, introduzida no Brasil com a chegada de grandes contingentes de negros escravizados, trazidos pelo tráfico atlântico. A presença de africanos de etnia bantu em diversas regiões brasileiras fez com que se difundissem várias formas de manifestações dramáticas e/ou coreografico-musicais de caráter guerreiro, estruturadas em torno das figuras do Rei do Congo, representante da Cristandade, e de seu oponente pagão – Rainha Nzinga (Jinga), Embaixador de Luanda e outros.  Cortejos como  o Congo, o Moçambique, o Maracatu, os Cambindas , o Cacumbi, o Ticumbi, entre outros, manifestam a presença de elementos reveladores de uma visão de mundo africana, como o respeito à ancestralidade.

 

Em comparação com os batuques de terreiro, como o Jongo e o Candombe (manifestações geralmente noturnas e intracomunitárias), classificados pelos viajantes-cronistas do séc. XIX como diversões desonestas, os congos eram considerados diversões honestas, propiciando, desse modo, uma forma de inclusão dos negros na sociedade colonial por ocasião das festividades religiosas ou oficiais. Assim como as corporações de ofício, os africanos e seus descendentes participavam do desfile público nos grupos de Congos  ligados às Irmandades Religiosas de Homens Pretos, colocadas sob o patronato dos santos de devoção negra, como São Benedito, Santa Efigênia ou Nossa Senhora do Rosário.

 

A figura do rei de Congo teve, no passado, um relevante papel político, sendo que o Império utilizou-se dos “reis de fumaça” (Mário de Andrade) como intermediário encarregado do controle social da massa escrava. Em alguns casos, entretanto, tal figura exerceu um poder político a favor da manutenção da identidade africana, o que possibilitou a reversão da condição escrava para muitos, a exemplo de Chico Rei, o governante congolês Galanga, deportado da África, que conseguiu comprar a sua própria alforria e a de muitos de seus compatriotas aqui mantidos em cativeiro.

 

Embora a prática de se coroar reis esteja adormecida atualmente no Estado de São Paulo, as Congadas estão vivamente presentes nas festividades populares, seja por ocasião de comemorações regionais ou de datas do Catolicismo popular, como as festas do Divino Espírito Santo e de São  Benedito.  Em Aparecida do Norte, Vale do Paraíba paulista, a grande festividade dedicada ao santo preto recebe anualmente dezenas de grupos vindos de São Paulo, Minas Gerais e Espírito Santo.

 

Henry Durante