Entende-se por caiçaras aquelas comunidades formadas pela mescla étnico-cultural de indígenas, de colonizadores portugueses e africanos. A cultura caiçara se desenvolveu principalmente nas áreas costeiras dos atuais estados do Rio de Janeiro, São Paulo, Paraná e no norte de Santa Catarina.

O Fandango encontrado nos litorais paulista e paranaense não seria apenas fruto de uma herança musical espanhola chegada ao Brasil por intermédio dos portugueses. Essa teria se miscigenado com a música que aqui já havia, também de violas e rabecas, nas vilas e caminhos desde os tempos da Capitania de São Vicente. Sua musicalidade transitou por terra e mar, pelos canais e ilhas que interligam o litoral paranaense ao de Cananéia e Iguape, em São Paulo, na região conhecida como Lagamar, estendendo-se até o litoral norte de São Paulo, unindo-se ao Bate-pé das praias de Ubatuba e, na cidade sul fluminense de Paraty, à Ciranda enquanto expressões coreográfico-musicais na forma de suíte de danças.

O Fandango aqui apresentado é compreendido, portanto, como uma manifestação de nossa cultura popular tradicional, fortemente associada ao modo de vida caiçara, onde dança e música são indissociáveis de um contexto cultural mais amplo. Sua prática no passado esteve vinculada à organização e prestação de serviços e ajuda na forma de trabalhos coletivos – mutirões, puxirões ou pixiruns – nos roçados, nas colheitas, nas puxadas de rede ou na construção de benfeitorias, onde o organizador oferecia como pagamento aos ajudantes voluntários um fandango, espécie de baile com comida farta. Para além dos mutirões, o Fandango, termo que genericamente significava “festa com dança”, “função” ou “pagode”, era a principal diversão e momento de socialização dessas comunidades, estando presente em diversas festas religiosas, batizados, casamentos e especialmente no carnaval, onde comemorava-se os quatro dias ao som de seus instrumentos.

A formação instrumental básica do Fandango, de modo geral, é composta por dois tocadores de viola, que cantam as melodias em intervalos de terças, um tocador de rabeca, e, no acompanhamento rítmico, um tocador de adufo ou adufe – espécie de ancestral artesanal do pandeiro, onde o couro é deixado mais frouxo para obtenção de um som mais grave. O cavaquinho também é bastante comum no estado de São Paulo e na Barra do Ararapira, localizada no estado do Paraná. Também são encontrados outros instrumentos de percussão, tais como o próprio pandeiro, surdos e tantãs.

A viola de Fandango diferencia-se das demais especialmente pelo variado número de cordas e pela presença da turina, cantadeira ou periquita, corda mais curta que vai somente até o meio do braço da viola e, como o próprio nome diz, dá o tom da voz do violeiro.

Os fandangueiros não possuem uma altura padrão para afinação das violas, porém, em geral, encontramos três tipos de afinação mais usados: a chamada “pelas três”, a “pelo meio” e a “intaivada” (nome que, provavelmente, deriva de oitavada), sendo esta a afinação predominante em Cananéia.

A rabeca, por sua vez, costuma ser feita na fôrma ou cavoucada, utilizando-se seus fabricantes de vários tipos de madeira diferentes, com predomínio da caixeta. O instrumento possui três cordas em quase toda a região. A rabeca sempre dobra a primeira voz e, nos momentos em que a moda ou marca não está sendo cantada, faz uma linha melódica própria, tendo um toque – ou ponteado – específico para cada uma. Segundo os fandangueiros, a rabeca enfeita o fandango e, por não ter pontos como a viola, é mais difícil de ser tocada.

Cada forma musical, definida pelos mestres violeiros, é chamada de marca ou moda, dependendo da região. Algumas das marcas conhecidas são tiraninha, sinsará, lagarto, serrana, turia dobrada, chamarrita, sinhaninha, manjericão, querumana, sapo, anu, feliz, marinheiro, andorinha, tonta, cana-verde, dandão e graciana, sendo que estas possuem toques e danças específicas, as quais  se dividem, basicamente, em duas categorias: os valsados ou bailados, os quais são dançados em pares por homens e mulheres, com ou sem coreografias específicas, e os batidos ou rufados. Nos batidos, os homens utilizam tamancos feitos de madeira resistente, como canela ou laranjeira, intercalando palmas e tamanqueando no assoalho de madeira, de acordo com a marca ou moda executada. As mulheres acompanham os dançadores em coreografias circulares, nas quais os pares vão traçando figuras, sendo a mais comum a de um oito, no sentido anti-horário.

Nos tempos de mutirão, era comum o baile de Fandango ser iniciado com o São Gonçalo. A chamarrita, entretanto, também chamada de chamarrita de louvação, era, em muitos lugares, a primeira marca que dava início ao fandango, onde se pedia licença para a brincadeira e era saudado o dono da festa. Vinha antes mesmo do anu, primeiro batido dançado.

 

O Grupo Esperança

 

O Grupo Esperança nasceu oficialmente em fevereiro de 2003, em um encontro de fandango realizado na Ilha do Cardoso a partir do qual o violeiro Beto Pereira assumiu a coordenação do grupo até então informal. O repertório do Grupo Esperança envolve, além de modas tradicionais, composições de Paulinho Pereira – primo de Beto e violeiro do grupo Violas de Ouro, de São Paulo Bagre. O São Gonçalo, a chamarrita, o dandão, o anu, a sinsará e a cana-verde são marcas do fandango registradas pelo grupo no CD produzido em parceria com o Projeto Acervo das Tradições.

 

Henry Durante e Fernando Oliveira Silva