O tema da Natividade compreende, no Brasil, um amplo leque de manifestações culturais populares, tais como as Lapinhas, os Reisados, as Pastorinhas, os Pastoris, o Reis-de-Boi capixaba, o Boi-de-Reis mineiro e as Folias e Ternos de Reis, presentes na maioria dos estados brasileiros.

 

Neste ciclo, que se inicia no dia 25 de dezembro e se estende até 6 de janeiro (Dia de Reis), são representadas passagens bíblicas relacionadas ao nascimento de Cristo, desde a perseguição empreendida por Herodes à Sagrada Família até a viagem dos Reis Magos e sua visitação ao Menino Jesus. Quando partem em peregrinação pelas casas de uma redondeza, encenando a jornada dos Reis Magos, as Folias de Reis do Sudeste costumam carregar, precedendo os músicos, um ou mais personagens mascarados, chamados comumente de palhaços. De forma geral, os palhaços nunca se deixam reconhecer, nem ser vistos sem as máscaras. Em certos grupos, os palhaços são proibidos de adentrar as casas, por representarem os soldados de Herodes. Sua entrada só é permitida sem as máscaras.

 

O caminho percorrido pelas Companhias de Reis, outro nome que recebem as Folias, também é cercado de muito cuidado. A Folia nunca costuma voltar pelo mesmo caminho que trilhou na ida, podendo a desobediência trazer má sorte aos integrantes do grupo. Em seu giro pela comunidade –  andança geralmente noturna, a exemplo dos Reis Magos que se guiavam pela Estrela-guia – as Folias arrecadam prendas, como dinheiro ou animais de criação, com a finalidade de realizar a festa em homenagem a Santo Reis.  Destaca-se nesta função, novamente, a figura dos palhaços, a quem cabe incentivar as doações graças à sua habilidade em dançar a chula e jogar versos que encantam os presentes. A Folia também costuma visitar pessoas que desejam fazer o pagamento de alguma promessa feita a Santo Reis. Há casos em que, em pagamento a uma graça recebida, o devoto ingressa na Companhia, compromisso que deve ser cumprido ao longo de sete anos seguidos. Alguns devotos chegam a esperar por mais de um ano pela visita da Folia, já que nem sempre o grupo consegue atender a todos os pedidos de visita.

 

É costume o dono da casa que espera pelos foliões montar o presépio, representação da cena da manjedoura de Belém. Nestes casos, o mestre da Folia deve saber dedicar versos a cada uma das imagens que ali estão, além de outros temas como a Anunciação, o Nascimento, a Estrela-guia, a Adoração, agradecimento e despedida.

 

O encontro entre duas Companhias de Reis pode proporcionar um desafio, no qual fica a cargo dos palhaços ou mestres testar os conhecimentos do oponente em torno de seu ofício. O grupo perdedor pode ter sua bandeira roubada ou presa pelo outro. Também o dono da casa que recebe a Folia tem o direito de desafiar os conhecimentos do mestre ou do palhaço. Caso não os consiga vencer, entretanto, pode ter aumentado o valor de sua prenda.

 

A polifonia vocal está presente nos diferentes estilos de Folia de Reis (identificados como mineiro, goiano ou baiano), sendo mais exuberante no sistema mineiro, em que as diferentes vozes da textura vão-se somando cumulativamente.

 

Henry Durante