Embora seja aceito que os festejos organizados ao Divino Espírito Santo estejam presentes no Brasil desde o século XVIII, há pesquisadores que defendem a existência da crença no Divino, em nossas terras, desde a chegada dos primeiros portugueses, já no século XVI. Entre esses pioneiros estariam padres missionários, além de simpatizantes do milenarismo difundido por Joaquim Di Fiori e implantado em Portugal, em 1323, pela Rainha Isabel de Aragão.

 

O culto original ao Divino, celebrado na época de Pentecostes, quando o Espírito Santo de Deus se manifestou aos homens, encontra oposição entre o clero devido ao seu caráter messiânico. Por  instaurar uma sociedade sem hierarquias nem classes, a “Época do Espírito Santo”, finalmente chegada, é a época da liberdade espiritual absoluta, tempo de fartura e partilha de bens materiais, representada na abundância de alimentos presente na festa, do mesmo modo que o Divino espalha seus dons entre os homens. A devoção ao Divino também é marcada por uma relação direta com o santo, por meio de promessas e adorações domiciliares, a exemplo dos impérios, montados em casa, onde a celebração pode ocorrer de forma livre, pois, como se diz, “o Divino não é santo de igreja”.

 

Dos Açores, cujo isolamento geográfico e cultural contribuiu para manter as antigas  características, a Festa do Divino veio e espalhou-se por praticamente todo o território brasileiro, adaptando-se às realidades locais sem perder, no entanto, seus eixos simbólicos, como a posse dos cargos do Império, envolvendo geralmente crianças que se sucedem nas funções de imperador, imperatriz, mordomos e bandeirinhas, entre outros.

 

Em Lagoinha e São Luiz do Paraitinga, há registros de festejos ao Divino datados de 1803, mas acredita-se que a festa exista desde décadas anteriores, em fins dos anos 1700. A Festa do Divino Espírito Santo, em São Luiz do Paraitinga e em Lagoinha, tornou-se uma das principais datas do calendário festivo destas duas cidades, mobilizando instituições e moradores nas atividades de preparação do afogado (prato feito à base de carne bovina, servido com farinha de mandioca e arroz ), distribuição de doces, brincadeiras (como o pau-de-sebo, corridas de ovo e de saco) novena e procissão. É muito relevante a participação dos moradores dos bairros rurais. É deles que advém a maior parte dos recursos obtidos nas visitas da Folia do Divino e, chegada a época da Festa, os habitantes da zona rural se deslocam para a cidade – a exemplo dos participantes da Cavalhada – pois sabe-se que a Festa pertence a eles também. Isto faz com que, neste período, a população da cidade aumente em muitas vezes.

 

A parte musical da festa inclui a participação das bandas de música e das danças de cortejo afrobrasileiras, Congadas e Moçambiques, além do Jongo. Destaca-se, entretanto, a presença dos foliões, ou da Folia do Divino. Nos tempos antigos, nos Açores, como verdadeiros mestres de cerimônia, os foliões do Divino detinham importante função ritual na coroação do imperador, papel este que foi sendo modificado com o passar do tempo, resumindo-se, nos dias atuais, à performance musical. Em São Luiz do Paraitinga e Lagoinha, assim como em outras localidades, a Folia do Divino tem como característica ser um grupo de peregrinação. Os integrantes da Folia – grupo composto por quatro músicos e o alferes ou cargueiro da bandeira, que também se encarrega de anotar e recolher as prendas –  vivem quase que “profissionalmente” de seu fazer, ou seja, vivem do e para o Divino. Ao longo do ano, mês a mês, cumprem uma jornada de 25 dias de peditório pela zona rural e arredores da cidade, sem retornar para casa, e 5 dias de descanso, a fim de arrecadar recursos para a festa, realizada em maio. Uma parte do que arrecadam é retirada, a título de salário dos integrantes do grupo. Esta característica de peregrinação nos últimos anos tem tido uma tendência a se modificar, com a substituição da Folia do Divino da função pela presença solitária do festeiro do ano, que viaja de automóvel apenas com a bandeira, a fim de arrecadar os recursos para a festa. Talvez este grupo de Folia do Divino das cidades de São Luiz do Paraitinga e Lagoinha seja o último a manter esta tradição.

 

A bandeira do Divino, mesmo com estas eventuais mudanças que podem ocorrer um ano ou outro, é aguardada com muita ansiedade, principalmente pelos moradores dos bairros rurais, pois é em torno dela que dirigem a maioria das promessas ao Espírito Santo. À chegada da Folia, a bandeira é entregue aos donos da casa, que a beijam e a conduzem pelos cômodos, pedindo fartura de alimentos e bênçãos para a família. Nela são pendurados ex-votos, como retratos de parentes, em função de graças alcançadas. Repetindo esse ritual, a bandeira passa por todas as casas da vizinhança. O devoto que oferece pouso à Folia tem o direito de ficar com a bandeira em sua posse até a manhã seguinte.

 

Na folia do Divino, o arcaísmo do canto pode ser percebido desde o gênero das peças musicais, a exemplo da solfa, derivada provavelmente da forma musical eclesiástica do mesmo nome. O estilo vocal tem como característica o diálogo entre o canto gutural, dito fechado, executado pelo mestre, e a resposta executada pelo contramestre em canto aberto (não-gutural), somando-se, em seguida, as vozes do contralto e do tipe (do latim triplum) cantado em falsete – denominações estas que remetem ao canto polifônico medieval. Outro traço a atestar a origem antiga da música da Folia do Divino é a presença do canto silábico (uma mesma sílaba estende-se por várias notas da melodia) em gêneros como a solfa, a toada e as alvoradas, fato que, muitas vezes, dificulta a compreensão do texto. Os instrumentos acompanhantes são as violas, executadas pelo mestre e pelo contramestre, o triângulo e a caixa, esta afinada, por meio de tarrachas, na tônica ou no quinto grau da melodia.

 

Henry Durante