À semelhança de São Luiz do Paraitinga, cidade na qual as congadas exercem grande influência na produção e desfile das marchinhas carnavalescas, o carnaval de São Luís do Maranhão, em seu período colonial, sofreu grande influência das culturas negras, por meio da adaptação no desfile público de folguedos praticados por negros cativos e libertos, como o Congo, a Chegança, o Fandango e a Caninha verde. Estas brincadeiras, muitas das quais de origem portuguesa, reelaboradas pelos negros que as realizavam em contexto ritual, passam a fazer parte dos desfiles de rua da capital maranhense, ao lado do Entrudo.

 

Por volta da segunda metade do século XIX, outras brincadeiras começam a ser introduzidas no carnaval de São Luís. Uma delas é o Baralho, passeata festiva composta por grupos de homens negros, que, acompanhados de instrumentos musicais como o violão, o pandeiro e o reco-reco, saiam pelas ruas entoando canções próprias, com o corpo coberto de pó.

 

Os primeiros anos do século passado, por sua vez, assistem ao florescer dos bailes de máscaras no qual Pierrôs, Arlequins e Colombinas experimentam os prazeres do flerte nos salões, tendo suas identidades protegidas por máscaras ricamente elaboradas, época de um lirismo em que também começam a reinar os cordões de seres assustadores como os  Fofôes,  os Ursos, os brincantes do Dominó, os Corsos e o personagem Cruz Diabo.

 

Muito comuns também eram os Assaltos Carnavalescos, brincadeira em que um grupo de foliões fantasiados se reunia para “invadir” inesperadamente alguma casa de família, acompanhados de uma orquestra de sopros, evento que costumava se prolongar até a madrugada.

 

Na década de 1930, o samba, que se  constituía como manifestação nacional, dará nova configuração ao carnaval de São Luís,  dando origem a formações como as Turmas de Samba e os Blocos.

 

Herdeiro dessas tradições, o Fuzileiros da Fuzarca é um dos mais antigos blocos tradicionais de São Luis do Maranhão. Fundado no dia 11 de fevereiro de 1936, no bairro da Madre-Deus, constitui-se em legítimo representante do batuque das Turmas de Samba. O grupo tem entre seus fundadores foliões como Cristovam Colombo da Silva, Sandoval Silva, Astrogildo Silva, Mané Caju, José João, Pedro Pantaleão, Carlos Moreira e Roseno Amaral, cuja filha, Iranildes Cruz Amaral, nos tempos atuais, foi coordenadora do grupo, até falecer recentemente.

 

Com seu peculiar uniforme, composto por terno, camisa preta e branca, calça preta com duas listras brancas, sapato e cartola pretos, esta, que leva uma estrela branca e as iniciais “FF” e seu ritmo cadenciado, caracterizado pela presença marcante da ritinta, tambor percutido com o auxílio de duas baquetas, confeccionado em couro de bode ou de carneiro para “manter a essência do toque”, além de outros instrumentos como pandeiro, cabaça, reco-reco, surdo, tarol-de-mão, cuíca e cavaquinho, a batucada dos Fuzileiros é uma das mais autênticas raízes do samba maranhense.

 

 “Em 1936 eu fui convidado por um irmão meu que saia nesse bloco. Esse bloco saia da rua de Santana, canto com a rua São João. Aí ele me convidou e disse “Olha, eu vou te apresentar, mas não sei se vai ser aceito… Porque lá nosso secretário, é lá uma cor parda. Então, ele odiava a cor escura. E ele tinha um irmão, o irmão dele foi apresentar lá, por esse intermédio, ele não aceitou o irmão porque ele disse: “escuro aqui só eu, e mais ninguém!”. Aí eu fui decente, andei brincando uns dois anos, aí eu parei fui sair no Quinto, depois saí no Cruzeiro… Quando foi agora há poucos, tá com três, poucos anos, que eu saí de novo, por intermédio desse Roseno, que era meu irmão, ele me convidou. Aí eu fui e só deixo quando eu morrer.”

 

Henry Durante, a partir de Depoimento de Seu Eusébio, 81 anos.