O jongo é uma manifestação coreográfico-musical de matriz africana. Considerada de origem congo-angolesa, há registros de sua ocorrência na área geográfica que abrange principalmente as regiões do vale do rio Paraíba do Sul (estados de São Paulo e Rio de Janeiro), Minas Gerais e litoral fluminense e capixaba, correspondentes a primitivos pontos de entrada de negros bantos escravizados nas fazendas de café e cana-de-açúcar no período colonial brasileiro.

 

Dança de diversão, mas também de caráter semi-religioso, seus pontos que podem ser cantados ou declamados são exemplos de uma complexa linguagem, quase sempre cifrada – aos modos dos provérbios, das adivinhas Lundas  e dos enigmas quimbundo jiningonongo da tradição oral de Angola – através da qual foi possível aos cativos comunicar-se sem se fazer entender pelos senhores, ao mesmo tempo em que, como desafio poético, os jongueiros cumba conseguem medir forças e conhecimentos entre si por meio de pontos de demanda, porfia, gurumenta ou encante, como que plasmando a realidade por meio da palavra, a ponto de dizer-se que esta tem o poder mágico de amarrar (fazer perder os sentidos, a fala, entre outros malefícios) aquele que não consegue desatar um ponto, ou mesmo fazer brotar uma bananeira plantada durante a roda de jongo.

 

Como canto responsorial, a repetição constante do coro e a constância do ritmo conferem à performance um caráter místico. Os tambores, na maioria dos casos denominados tambu (ou caxambu) e candongueiro, compõem os elementos propiciatórios de conexão com os ancestrais.

 

Em algumas comunidades encontramos tambores de tronco escavado ou barrica, tendo a boca coberta por couro de boi ou de cabrito e afinado pelo fogo, havendo ainda, em certos casos, a presença da puíta (precursora da cuíca) e do guaiá (chocalho).

 

No caso do jongo de Barra do Piraí, notamos também a presença do mucoco, espécie da matraca percutida contra o tambor, para marcar o ritmo.

 

O jongo, atualmente, é realizado por ocasião de festas ou datas tradicionais, como por exemplo as do Ciclo Junino, o 13 de maio, a Festa do Divino ou mesmo em função do pagamento de promessas, assim como mais recentemente vem sendo realizado em performances de palco.

 

O Grupo Mistura da Raça foi criado em 2002 pelo Mestre Laudeni de Souza e seus  familiares, graças à necessidade de manter viva em São José dos Campos a tradição que fora herdada de seu pai, Mestre Dorvalino de Souza, em Barra do Piraí, RJ, onde todos faziam parte do grupo “Os Filhos de Angola”. Mestre Dorvalino, por sua vez, recebera a herança do jongo de seus pais, tios e padrinhos numa reunião de família na Fazenda Santa Maria na Ponte Alta, local onde cantavam e marcavam o rítmo com dois bambus taquaruçu batidos contra o chão, fazendo as vezes de caxambu e candongueiro.

 

Ao saber que também em São José dos Campos, há muitas décadas, existiam jongueiros, Laudeni resolveu reunir pessoas que tinham afinidade com essa expressão.

 

No repertório do grupo encontram-se pontos de diferentes classificações, tais como de abertura ou licença, louvação, visaria ou bizarria (para alegrar a dança), saudação e despedida,  assim como podemos observar o encadeamento dos assuntos em linhas ou laçadas e  encontrar o desafio, cujo caráter de peleja, semelhantemente às  puyas afro-cubanas, que compreendem temas satíricos, os quais são dirigidos diretamente de um cantador a outro, tendo, neste caso, o mestre Laudeni no papel de “galo” e sua esposa Márcia como desafiante.

 

Henry Durante