O Grito da Noite acontece na quarta e na sexta-feira que antecedem o carnaval. Era costume, no passado, a maioria dos participantes saírem mascarados pelas ruas de Santana de Parnaíba empunhando tochas e bonecões de caveiras,  entre outros elementos que conferiam uma atmosfera “fúnebre” ao cortejo carnavalesco, como alegoria da antiga Procissão das Almas  que ocorria na cidade no século XIX, procissão esta realizada durante a Semana Santa pela extinta Confraria das Almas e ainda viva no imaginário dos moradores da cidade por sua dramaticidade.

Talvez a memória do terror da Procissão das Almas, com seus fiéis cobertos por capuzes e lençóis empunhando velas, suas imagens de martírio, esteja na origem do carnaval de Santana de Parnaíba, como em um processo sublimado, no qual o povo necessitasse transformar, pelo riso,  impulsos que com o passar dos tempos passaram a ser vistos como condenáveis em algo possível de ser aceito.

Isto talvez nunca saberemos com certeza. Mas, como no carnaval de Santana de Parnaíba o que vale é a irreverência, por meio da qual vários personagens da cidade são homenageados ou satirizados nos sambas e nas histórias, dentre as versões correntes sobre a origem da manifestação, a mais aceita é a  que conta que, durante a procissão, os moradores da cidade costumavam trancar-se em suas casas, pois não era permitido vê-la. Até que Henrique Preto, negro “filho do Ventre Livre”, nascido de uma escrava na Fazenda Jaguari, resolveu desafiar essa interdição e olhar a passagem do cortejo. Tendo, nesse momento, um dos fiéis lhe entregue uma vela para que guardasse até o dia seguinte da procissão, qual não foi sua surpresa quando, no prazo marcado, bate à sua porta a pessoa - que viera recuperar seu pertence-, mas, ao ir buscar a vela, esta havia se transformado em um fêmur, ao passo que seu dono desaparecera.
Assustado, Henrique Preto teria saído à rua aos gritos, batendo seu bumbo até a porta do cemitério, “para espantar as almas”, no que passou a ser irreverentemente imitado por seus amigos, que passaram a ser  vestir de fantasma e tocar bumbo até a porta do cemitério, a fim de satirizá-lo, dando origem, assim, à brincadeira chamada Noite dos Fantasmas.

Desde então, todos os anos durante o carnaval, ao som dos instrumentos bumbo - às vezes chamado zabumba ou “Cacique”-, caixa e chocalho, os foliões, vestidos com túnicas  ou usando cabeções de caveira, percorrem as ruas históricas de Santana de Parnaíba até os portões do cemitério local.

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