No rico e diversificado universo da cultura popular maranhense, afirma-se um calendário que se efetiva ao longo de todo o ano com um conjunto de festividades, manifestações e grupos característicos de determinadas épocas.

Assim, neste calendário cultural configuram-se tradicionais ciclos festivos. Em verdade, estes ciclos, em sua dinâmica, expressam a identidade cultural maranhense no seu jeito popular de comemorar cada tempo do cotidiano de vida.

Há de se destacar, aqui, o Ciclo Natalino que encarna um importante agrupamento das atividades festivas anuais, rico em simbologia, centradas na vivência do Nascimento do Menino Jesus e sua mensagem de paz e fraternidade.

É bem verdade que longe vão os tempos de uma São Luís pequena, aconchegante, com festejo natalino preponderantemente religioso, coloquial, das famílias reunidas à meia-noite de 24 de dezembro para a Missa do Galo, dos presépios de cenário, de abóbada e de rua.

Porém, ainda são marcantes os tradicionais grupos de Pastores e Pastorais, Reis e Reisados, Presépios e sua Queimação de Palhinhas.

 

Queimemos, queimemos

As nossas palhinhas,

Com cravo e rosas

Queimemos a lapinha

 

Adeus meu Menino,

Adeus meu amor,

Até para o ano,

Se nós vivo for

 

Assim cantam alegres os devotos do Menino Jesus na Queimação de Palhinhas, realizada, tradicionalmente, em sua homenagem, na cidade de São Luís do Maranhão, nos terreiros de culto afro maranhense – como a Casa das Minas e a Casa de Nagô – Igrejas Católicas, associações, sedes de grupos e órgãos públicos e casas particulares. Dentre estas últimas destacam-se Nizeth Medeiros – filha e continuadora de Augusto Aranha –, Terezinha Jansen Pereira, Maria de Jesus Nogueira Cardoso, Flávio Veiga e Tereza Cristina Pereira Brenha.

No Ciclo Natalino, a Queimação de Palhinhas configura-se como um ritual religioso e festivo que marca o encerramento das atividades na capital do estado. No seu decorrer, parentes, amigos, vizinhos e pessoas da comunidade ligadas à casa que faz essa devoção reúnem-se em torno do presépio para queimar os galhos de murta que o enfeitam.

Tudo começa com uma Ladainha cantada por uma rezadeira num latim aportuguesado, seguida de outras orações e cânticos, entre os quais se sobressai aquele que é característico dessa solenidade, que geralmente conta com o acompanhamento de músicos populares. Durante a cantoria, cada pessoa presente pega um pequeno galho ou punhado de murtas e joga em um fogareiro, enquanto, em pensamento, agradece uma graça e/ou faz um pedido ao Menino Deus, esperando estar ali, novamente, na próxima Queimação de Palhinhas como bem repete o refrão cantado.

O ritual inclui a participação de um casal de padrinhos do ano em curso e do próximo ano, havendo a passagem fervorosa da Imagem do Menino Jesus dos primeiros para os segundos, como uma forma de transmissão do compromisso de continuar com essa devoção.

No caso do evento ter caráter grupal ou comunitário mais amplo como os promovidos em sedes de associações ou órgãos públicos, consta em sua programação procissões pelas ruas, cortejos, apresentações de grupos natalinos de Pastores e Reis, números musicais, distribuição de lembrancinhas e envolvimento de um númeroso público.

Uma particularidade desse ritual é a partilha: da fé religiosa, de sentimentos, de emoções e de ações. E, essa partilha, no encerramento da Queimação de Palhinhas, materializa-se no ato de comer e beber juntos, quando são servidos petiscos, guloseimas e bebidas como: chocolate, refrigerante (o nosso Guaraná Jesus), licor, mingaus de milho e de tapioca, beiju, manuê, pamonha, pastilha, bolos de trigo, tapioca, macaxeira, peta, dentre tantos outros…

A Queimação de Palhinhas marca um tempo de festividades após a celebração do Natal, iniciando-se a partir do Dia de Reis – 6 de janeiro – e prosseguindo durante todo esse mês. Assim encarna um misto de saudade e esperança: ao mesmo tempo em que despede-se do Natal, saudando o Menino Jesus, dá as boas vindas ao ano que se inicia, como um bom e gostoso augúrio!

 

Maria Michol Pinho de Carvalho*. In: DURANTE, H., CORREA, L. (Orgs.) De São Luiz a São Luís, 2007 (Livro-CD)

* Pesquisadora da cultura popular maranhense, administradora cultural e membro da Comissão Maranhense de Folclore