O samba produzido em terras paulistas, embora pertença a manchas ou bacias culturais que diferem das fronteiras geográficas criadas artificialmente, tem características próprias, resultado de fatores históricos e sociais que nestas terras propiciaram o encontro da musicalidade dos negros bantos trazidos pelo fluxo de mão de obra escravizada na região durante os séculos XVIII e XIX decorrente de fatores tais como o declínio das plantações de café do Vale do Paraíba Fluminense e Paulista e das áreas produtoras de açúcar no Nordeste somado aos efeitos da Lei Eusébio de Queirós – que fizeram aumentar o tráfico ilegal interno para as fazendas de café da região chamada antigamente de “Oeste paulista” (Jundiaí, Louveira, Campinas, Piracicaba, Tietê, Capivari, entre outras) – com o bumbo, instrumento ibérico, o qual incorporam e adaptaram seu modo de tocar à rítmica africana, rica em síncopas e polirritmias.

 

Dessa forma, ao lado do batuque de umbigada, praticado com troncos escavados, o samba paulista se forma a partir das raízes ditas caipiras, sendo por isto chamado por pesquisadores como samba rural paulista, samba campineiro ou samba de bumbo, tendo como foco irradiador as festas em Bom Jesus de Pirapora.

 

Com a Abolição, vieram os italianos substituir o trabalho escravo nas lavouras na região. Estes, somados ao branco pobre, de origem ibérica, passaram a engrossar o público participante dos batuques realizados nas zonas rurais das cidades. Não é à toa que um dos maiores expoentes do samba paulista é nascido na cidade de Valinhos, de onde muito cedo se mudou para Jundiaí: João Rubinato, de origem italiana, o grande Adoniram Barbosa.

 

Além de sua abrangência pelo interior do estado, o samba de bumbo desempenhou importante papel também na formação do samba paulistano, não só por conta da peregrinação de sambistas a Festa de Pirapora, como por conta da estrada de ferro que ligava Jundiaí a São Paulo. O Largo da Banana, na Barra Funda, em São Paulo, foi no início do século 20 o local de encontro entre os negros que chegavam com os trens trazendo as mercadorias do interior paulista e aqueles que aqui já se encontravam nos bairros da Barra Funda, Campos Elíseos, Glicério, Aclimação, Bela Vista, entre outros. Nos intervalos entre os trens tocava-se o samba e jogava-se a tiririca, espécie de capoeira de pernada executada também ao som do samba batucado em caixotes.

Assim, a partir da reunião dos negros no Largo da Banana, tiveram origem os cordões paulistanos, os quais tinham primeiramente a mesma orquestração do samba de bumbo das festas de Pirapora (bumbo, caixa e chocalho), antes de incorporarem elementos do carnaval das “elites”.

Foi junto ao Largo da Banana que Dionísio Barbosa fundou o primeiro cordão carnavalesco paulista, o Grupo Carnavalesco Barra Funda que, em 12 de março de 1914, adotou o nome de Cordão Camisa Verde. O livro Escolas de Samba de São Paulo, de Wilson Rodrigues de Moraes (Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 1978) nos conta que, no início eram 12 sambistas vestindo calça branca, camisa verde e chapéu de palha, alguns dos quais tocando pandeiros e outros um chocalho de madeira, em que se pregavam tampinhas de garrafas de cerveja. O primeiro surdo só foi adquirido em 1920, quando o grupo já tinha 60 foliões.

O cordão virou escola de samba, com uma história de glórias e lindos sambas e nomes importantes como o da família de Inocêncio Mulata, Dona Sinhá, Tobias, e compositores com Talismã e Ideval, o mestre-sala Delegado, entre muitos outros.

 

Outro famoso bairro de presença negra na cidade de São Paulo é o bairro do Bexiga. No ano de 1927 forma-se o cordão carnavalesco Vai-vai.  Em 1929, o cordão carnavalesco sai às ruas com uma marchinha composta por Henricão, um dos maiores compositores do samba paulista. Henricão veio da cidade de Itapira, no interior paulista para jogar futebol no Corinthians, mas, como ele mesmo diz, levaram ele pro samba e  o “estragaram”. Sorte do samba de São Paulo, que ganhou algumas pérolas conhecidas nacionalmente, tais como Marambaia.

 

Henry Durante