(Termo Geral (TG) = Batuques de Terreiro; Termos relacionados = Samba de Bumbo, Samba Rural Paulista)

Ver também: Samba do Cururuquara, Samba Grito da Noite, Samba de Bumbo Rural Vovô da Serra do Japi, Samba Caipira Os Filhos de Quadra, Samba Lenço de Piracicaba e Samba de Roda Dona Aurora de Vinhedo

 

 

A cidade de Pirapora do Bom Jesus tem uma importância vital na formação do chamado samba de bumbo, identificado também como samba campineiro ou samba rural paulista.

 

Os milagres atribuídos à imagem do Senhor Bom Jesus encontrada nas águas do Rio Tietê em 1725 fizeram com que a cidade se tornasse ponto de uma intensa peregrinação de devotos, romeiros e piraporeanos.

 

Geralmente, identificavam-se como devotos e romeiros os indivíduos brancos, advindos de inúmeras cidades, que participavam das atividades religiosas “oficiais” da Festa do Padroeiro para cumprirem promessas e se hospedavam nos hotéis. Já como piraporanos eram chamados os negros, embora viessem de cidades tais como Campinas, Piracicaba, Tietê, Rio Claro, entre outras. Estes foram trazidos pelo fluxo de mão de obra escravizada para a região durante os séculos XVIII e XIX decorrente de fatores tais como o declínio das plantações de café do Vale do Paraíba Fluminense e Paulista e anteriormente das áreas produtoras de açúcar no Nordeste. Tais fatos, somados aos efeitos da Lei Eusébio de Queirós, de 1850, proibindo o ingresso de escravos no Brasil, fizeram aumentar o tráfico ilegal interno para as fazendas de café da região chamada antigamente de “Oeste paulista”.

 

Como um dos resultados deste fluxo, temos a formação do chamado samba rural paulista, samba campineiro ou samba de bumbo, fruto da incorporação do bumbo, de origem ibérica, à musicalidade dos negros bantos, os quais adaptaram o modo de tocar o instrumento à rítmica africana, rica em síncopas e polirritmias.

 

Este fenômeno em muito se deve às festas do catolicismo realizadas em Pirapora, em particular as de Nossa Senhora das Dores e do Bom Jesus, realizadas nos dias 5 e 6 de agosto, respectivamente, a partir do momento em que foram adotadas pelos negros, que passaram a realizar uma festividade paralela nos barracões, mantidos pelos padres, onde se hospedavam e se alimentavam. Nos dias em que ali permaneciam, os diversos “batalhões” negros advindos de diversas localidades se “desafiavam” por meio dos cantos improvisados, marcados pela presença do bumbo e outros instrumentos de percussão.

 

Dona Maria Ester, com 90 anos, e Seo João do Pasto, com 83, os quais vivenciaram estes tempos, se recordam de sambadores tais como João Grande e Alfredão, vindos de Campinas, além de Honorato Missé, Nhô Abel e Miguel Critelli, de Pirapora.

 

O samba rural desempenhou importante papel também na formação do samba paulistano, não só por conta da peregrinação de sambadores à Festa de Pirapora, como por conta da estrada de ferro que ligava Jundiaí a São Paulo. O Largo da Banana, na Barra Funda, em São Paulo, foi no início do século XX o local de encontro entre os negros que chegavam com os trens trazendo as mercadorias do interior paulista e aqueles que aqui já se encontravam nos bairros da Barra Funda, Campos Elíseos, Glicério, Aclimação, Bela Vista, entre outros. Nos intervalos entre os trens tocava-se o samba e jogava-se a tiririca, espécie de capoeira de pernada executada também ao som do samba batucado em caixotes.

 

Assim, a partir da reunião dos negros no Largo da Banana e adjacências, tiveram origem os cordões paulistanos, os quais tinham primeiramente a mesma instrumentação do samba de bumbo das festas de Pirapora (principalmente bumbo, caixa e chocalho), antes de incorporarem elementos do carnaval das “elites” e do Rio de Janeiro.

 

A festa “profana”, feita pelos negros nos barracões com o tempo passou a rivalizar com a festa religiosa, o que fez com que a Igreja derrubasse os barracões, que eram de sua propriedade. O samba de bumbo, entretanto, continuou a acontecer em Pirapora, mas sem um ponto determinado e sempre sendo muito reprimido pela polícia, como demonstram alguns dos sambas reunidos neste CD.

 

Henry Durante

 

Fontes consultadas

Entrevista com Dona Maria Ester e João do Pasto em outubro de 2014.

Entrevista com Márcio Risonho em 2013.

ANDRADE, M. de.   O samba rural paulista. In: Revista do Arquivo, n. 41. São Paulo: Departamento de Cultura,1937.

CUNHA, M. W. V. da. Descrição da festa do Bom Jesus de Pirapora, 1937.

MANZATTI, M. Samba paulista, do centro cafeeiro à periferia do centro: estudo sobre o samba de bumbo ou samba rural paulista. São Paulo: PUC, 2005 (Dissertação de mestrado)