O samba de bumbo, identificado também como samba campineiro ou samba rural paulista, é uma expressão coreográfico-musical de origem afro-brasileira, que reúne sambadores e sambadoras objetivando, sobretudo, o cultivo de ancestralidades e a prática devocional.

 

Embora pertença a manchas ou bacias culturais que diferem das fronteiras geográficas criadas artificialmente, o samba rural paulista tem características próprias, resultado de fatores históricos e sociais que propiciaram o encontro da musicalidade dos negros bantos (trazidos para o antigo “Oeste paulista” durante os séculos XVIII e XIX pelo fluxo de mão de obra escravizada causado por fatores tais como o declínio das plantações de café do Vale do Paraíba Fluminense e Paulista e anteriormente das áreas produtoras de açúcar no Nordeste, assim como pelos efeitos da Lei Eusébio de Queirós, de 1850, a qual proibiu o ingresso no Brasil de homens e mulheres escravizados, o que fez aumentar o tráfico ilegal interno para as fazendas de café da região) com o bumbo, instrumento ibérico incorporado e adaptado ao modo de tocar e à rítmica africana, rica em síncopas e polirritmias.

 

Dessa forma, ao lado do batuque de umbigada, praticado com troncos escavados, o samba paulista se forma a partir das raízes ditas caipiras, tendo como foco irradiador as festas em Bom Jesus de Pirapora.

 

Com a Abolição, vieram os italianos substituir o trabalho escravo nas lavouras na região. Estes, somados ao branco pobre, de origem ibérica, passaram a engrossar o público participante dos batuques realizados nas zonas rurais das cidades.

 

Em Vinhedo, de acordo com relatos de participantes do atual Samba de Dona Aurora, o samba de bumbo foi realizado originalmente até, pelo menos, 1948. Os sambadores, à época, reuniam-se nas fazendas da região em função principalmente da devoção aos santos juninos, mas também por ocasião de eventos tais como casamentos, entre outros.

 

Alguns dos sambadores e sambadoras lembrados são Agenor de Matos, Pedro Tomás, Paulino, João, Antônio Crescêncio, Nestão, Arlindo Marsal, Miro Marsal, Romiro Marsal, Seo Chico e Tico Soldera, sendo este último de ascendência italiana. As mulheres também tinham um papel destacado na manifestação. Algumas das principais sambadoras eram Maurícia Teixeira (avó de Agenor da Silva, líder atual do grupo) – a qual, além de entoar “pontos” era exímia tocadora de bumbo -, Maria Conceição da Silva (mãe de Seo Agenor), Andira e Dona Aurora, à qual cabia organizar o grupo, e ainda Tia Ana, Rosalina, Dona Lourdes.

 

De acordo com Agenor da Silva, a partir da década de 1950 o samba de bumbo foi deixando de ser realizado de forma sistemática em Vinhedo, chegando a haver a interrupção dos festejos entre 1998 e 2005, quando as atividades foram retomadas, a partir da restauração dos bumbos e de convites para apresentações. A partir daí, forma-se o grupo “Samba de Roda Dona Aurora”, reunindo-se integrantes de Vinhedo e de Louveira, e há o retorno da festa, geralmente realizada no bairro da Capela, em Vinhedo, no mês de julho.

 

Podemos ainda observar no Samba de Roda Dona Aurora, assim como em outros grupos de samba de bumbo, elementos presentes em outros “batuques” – como foram denominadas pelos cronistas e viajantes coloniais certas celebrações intra-comunitárias em geral noturnas realizadas pelos negros nas senzalas, as quais, por meio da música, da dança e da linguagem por vezes cifrada dos cantos possibilitavam a diversão, o equilíbrio de forças espirituais e até mesmo a articulação de fugas. Os “pontos” (formas poético-musicais) do Samba de Roda Dona Aurora tratam de situações tais como saudação ao local, aos antepassados ou santos de devoção, disputas entre indivíduos ou grupos, diversão e despedida, sendo, neste sentido, análogos aos pontos de louvação, demanda, visaria e encerramento de outra expressão coreográfico-musical de comunidades negras do Sudeste brasileiro identificada como jongo.

 

Dos grupos de samba de bumbo em atividade, o Samba de Roda Dona Aurora é o que mais nos faz reviver as impressões de Mário de Andrade sobre o samba rural paulista expressas em seu texto, publicado em 1937, sobretudo quando este descreve a performance dos participantes, onde “enfileirados os instrumentistas, com o bumbo ao centro, todos se aglomeram em torno deste, no geral inclinados pra frente como que
escutando uma consulta feita em segredo” e, então, há um “frenesi saltatório, mais que obscenidade (…) [onde] o que domina é o ritmo, o peso, a bulha violenta da percussão, as melodias primárias, e uma brutalidade insensível. De vez em quando, no recuo, uma negra volteia rápido sobre si mesma”.

 

 

Henry Durante e Grupo Samba de Roda Dona Aurora

 

Fontes consultadas

Entrevista com Sr. Agenor da Silva (76 anos) em 21/09/2014

ANDRADE, M. de.   O samba rural paulista. In: Revista do Arquivo, n. 41. São Paulo: Departamento de Cultura, 1937.