1. Jaime_ (…) livre né, assim … digamos assim sem regras né. O samba chula ele é mais disciplinar, ele tem uma regra né. Na hora que tá se cantando a chula tem que tá ouvindo. É tipo na hora que vai começar a roda de capuêra que canta a ladainha e todo mundo tem que tá ouvindo a ladainha né, não pode jogar também, e ai vem a louvação “Iê viva meu deus! Iê viva meu deus camará”. Então é uma coisa muito parecida. Então na hora que o cantador para de cantar é quando só uma dama pode entrar pra sambar, e ai quando ele começa ela sai. E se ela sair antes ele começa o canto de novo, ai retorna o canto. E a chula ela pode ser repetida três vezes né. Eu poderia repetir essa três vezes mas ai no caso que é uma abertura não precisa né.

Henry _ O samba de roda de Itaparica, lá do Mar Grande heim.

MJ_ É… o samba de roda de Itaparica. A, isso vem de muitos anos né, o meu avô foi sambador, chegou ao ponto de acompanhar um samba de alma né. Passava pela frente da casa dele as três da manhã e ele ouviu esse samba arrojado, e o véio como gostava de samba levantou, catou a viola dele debaixo do braço e seguiu. Foi em busca do samba. Ele andava, via de longe o grupo, mas nunca chegava próximo, nunca se aproximava. Por mais rápido que ele andasse ele não conseguia. Ai lá vai, lá vai, lá vai, lá vai. Ai tem uma, uma rua que segue e tem uma outra que entra a esquerda, essa rua ia dar no cemitério. Quando ele viu o grupo de samba seguir a rua da esquerda, isso já beirava umas três e quarenta da manhã, ele desconfiou. Quando ele desconfiou o samba das almas cantou “Não sou eu, não sou eu que matei seu gavião/ Volte logo para casa não caia em outra não”. Ele ai … Voltou pra casa.

H_ Qual era o nome dele?

MJ_ José Epitácio de Lima.

H_ Que é o seu avô?

MJ_ Meu avô!

H_ Isso ele passou pro filho dele? Pro seu pai no caso?

MJ_ A família toda tocava instrumento de corda. Meu pai tocava bandolim, tocava chorinho.

H_ Qual o nome do seu pai?

MJ_ Meu pai chamava Manoel Lima, tocava bandolim, tocava banjo, tocava cavaquinho. Meu tio Bertinho tocava viola de dez cordas. Meu tio marinho tocava viola de dez cordas. Meu tio Filinho tocava violão. Meu tio Dorinho, é o único vivo que tem hoje toca cavaquinho, e toca muito.

H_ E como que o senhor entrou no samba de roda?

MJ_ Ah, eu convivi com o samba dentro de casa né. Andava pra cá andava pra lá. Rolava pra cá, rolava pra lá. Naquela época tudo virava samba né. É um que bate na mesa, é outro que bate na panela, é outro que toca no prato né, e por ai vai. É outro que toca no balde, outro que toca na panela.  E ai quem tinha corda ali já pegava a corda. Na minha casa foi sempre assim né.

H_ E seu avô tava junto? Seu pai? Quem tava nesses sambas assim?

MJ_ Nessas rodas era mais meus tios que tavam mais, mais novo né. E ai já com os sete anos eu comecei a ouvir, ver e ouvir roda de capuêra e roda de samba do mestre Quadrado. E atrás da casa da minha mãe tinha um velho chamado Mané Sordado. O velho Mané Sordado sambava sozinho. O velho Mané Zambeta, vizinho, sambava sozinho. Você ouvia eles sambar parecia que tava lotado de gente sambando. E mentira. Era ele sozinho. “Eeee a volta do mastro quebrou! Eeee a volta do mastro quebrou! Marinheiro caiu n’água, o mestre se zangou aguente o leme a volta do mastro quebrou!” (Samba do mestre mané Sordado). Ai o pandeiro só faltava falar. E ele entrava sambar e dava imbigada na vassoura. E era a noite toda. E ele sozinho, cantava uma parte da chula, ia sambar, voltava e ia cantar de novo. Amanhecia o dia sambando. Era os dois, um morava aqui e o outro morava ali. E era uns velho alegre, pra frente. Num tinha tristeza…

H_ Quer dizer que era o Sordado e o Quadrado?

MJ_ Não, o Sordado e o Zambeta. O Quadrado fazia o Samba na frente da bodega, bodega é onde vende pinga, do mané Zambeta.

H_ Quando foi a primeira vez que o senhor encontrou com o mestre Quadrado?

MJ_ O mestre Quadrado depois de um certo tempo ele mudou da Gamboa e foi morar na Gameleira. Mas ele ficou no compromisso de todo domingo fazer a roda de capuêra que ele fazia na Gambôa, que foi onde ele nasceu, onde eu nasci também. Ele fazia a roda de capuêra e a roda de samba. Depois levei muitos anos sem ver Quadrado, e depois me interessei a ir buscar ele, já eu adulto né, de saber mais sobre ele. E quando eu procurei ele, ele tava meio afastado da capuêra mas fazia os samba dele né, não largou o samba. E eu comecei a convidar ele pros eventos que fazia. Ele nunca ia, dizia que ia mas num aparecia. Eu fiz uns três eventos, fiz dois primeiro e levei tipo assim uma boa parte dos capuêra antigo da Bahia né, de Salvador que tavam morando em Salvador, pro evento e ele não aparecia. Quando foi no terceiro eu disse “eu já sei como eu vou fazer”, eu não vou lá convidar ele eu vou pegar um carro aqui e vou lá pegar ele. Ai esperei primeiro o pessoal de Salvador chegar. Nos nossos eventos a gente nunca teve essa coisa de não poder beber né, não tem isso porque pra gente tudo é brincadeira, é divertimento, não é competição, não é luta não é nada. Então deixei o pessoal tomando a cervejinha, tomando um licorzinho de jenipapo é claro, o nosso cálice lá da Ilha, da Gambôa né, não pode faltar, e peguei um carro e fui buscar ele. Cheguei na casa dele e disse “ô mestre dessa vez eu não vim convidar o senhor, eu vim buscar o senhor”. Ele disse “mas Jaime, rapaz, eu tô tanto tempo fora de capuêra”. Eu perguntei a ele “o senhor não gosta de capuêra?”. Ele disse “eu gosto Jaime”. Ai a mulher dele veio e disse “mas Gerson, o rapaz já teve aqui várias vezes te convidando. Pra que que você diz que vai e depois não vai? Isso não é coisa de homem não.”. Ele olhou pra ela assim, se enfezou assim. Ai ela disse “não, mas isso não é coisa de homem nenhum não. Se você diz que vai você tem que ir.” Ai ela disse “eu vou passar uma calça pra você e você vai com ele hoje”. Foi, passou a calça, fiquei esperando ali. Voltamo, fomos embora. Chegou lá apresentei ele ao pessoal e deixei ali uns minutos eles papeando um pouco enquanto eu arrumava os berimbau e pá e pá. Ai começamos a roda, começamo a roda e lá vai, lá vai, lá vai. Ele disse “eu não vou pular!”. Ele não usava o termo “eu não vou jogar” ou “não vou vadiar”, o termo dele é “eu não vou pular”. E ai cantou, depois terminou a roda fizemos uns minutos de samba lá, sei lá uns trinta minutos, depois paramos e ficamos todo mundo papeando né. Ai o pessoal perguntaram a ele “o mestre porque o senhor levou tem 25 anos afastado da roda de capuêra?”. Ele ai virou e fez “eu sai da roda de capuêra porque eu não gosto de fofoca, eu não sou homem de fofoca. Eu não sou homem de duas conversa. Eu sou um homem de uma conversa só. Não tem duas conversa comigo. Por isso que eu sai.” Ai, ficaram todo mundo assim (falando baixo), meio parado assim. Bom, dai o papo continuou, quando foi no final ele disse “Jaime, agora se prepara que toda sexta feira eu tô lá no espaço, na roda.” E colou comigo que era, era direto, direto.  O Quadrado era um homem sem igual cara. Era um homem. Era um homem, se ele dissesse que isso é isso, isso é isso não voltava atrás, não voltava atrás. E ai ele começou a ser procurado, nós gravamos um cd de capuêra e no final a gente encerra com um pouco de samba chula.

H_ Quantos anos que ele tinha na época?

MJ_ Setenta e… Uns setenta. Setenta, ainda não tinha setenta quando eu procurei ele. Deveria tar com uns sessenta e oito anos, por ai. Ele morreu com setenta e nove.

H_ Desses sambas corridos que tão no CD da Paraguassu o senhor quer falar alguma coisa dos que são dele, do mestre Quadrado, e de outro também não?

MJ_ Eu acho que não.

H_ Tá.

MJ_ Não porque tem mesmo muita coisa que é da cultura popular, então…

H_ O senhor não lembra de um assim que…

MJ_ Eu acho que quando você cria e que você joga no universo, deixa de ser seu né. Então eu sou muito a favor dessa visão né. Você foi um veículo pra trazer aquilo, você trouxe e se as pessoas continuam cantando é porque gostam né e é sinal de que foi uma grande obra.

H_ Sim, eu também acredito. É que as vezes tem algum que o senhor queira destacar né.

MJ_ Eu cantei essa chula porque eu não vi ninguém cantando essa chula, só vi ele mesmo. Tem outras que eu só vi ele cantar, não vi mais ninguém.

H_ Mas que não estão nesse CD que a gente tá fazendo…

MJ_  Não está.

H_ E porque que o mestre Quadrado é considerado assim, tem essa importância toda?

MJ_ A o Quadrado ele tem uma importância porque ele era uma pessoa muito diferenciada. De todo mundo, de todas as pessoas que são mestres de samba chula mesmo, que é um samba mais raro, entendeu. Com todo respeito, mas ele era uma pessoa de muito destaque. E isso eu ouço de pessoas que pesquisam samba chula. Que sentiam nele uma coisa muito diferente de qualquer outra pessoa. Isso era muito real. Sabe aquela voz, aquele timbre de voz seca e forte, um Bob Marley cantando, era o Quadrado…

H_ Pela voz dele, pelo timbre…

MJ_  É, pela segurança né. Sabia o que estava fazendo. E fora do que ele, a capacidade de criar, de improvisar. De mandar um recado unicamente pra você. No de cem pessoas você saber que era pra você.

H _ Como é que era isso?

MJ_ (risos) Ele mandava e só você ia saber que era pra você.

H_ O senhor lembra de algum caso?

MJ_ A, vi muitos casos.

H_ A é. Como é que é?

MJ_ Alguns casos dele.

H_ O senhor lembra uma história?

MJ_ Tava assim e ia embora, e a pessoa sabia que aquilo era pra ela. Era fantástico.

H_ Se o cara tivesse fazendo alguma coisa errada…

MJ_ Vixe…

H_ No jongo tem uma que a gente canta que é assim: “Meu cachorrinho foi pro mato caçar. Que é que ele trouxe eu vou assinar”. Que é aquela linguagem cifrada né. Tem a linguagem cifrada…

MJ_ Metáfora né…

H_ Tem isso no samba de roda também?

MJ_ Tem! Capuêra tem isso pra caramba.

H_ E o mestre Quadrado mandava umas assim?

MJ_ Ô!

H_ O senhor lembra alguma?

MJ_ No momento não, mas ele mandava na linha assim. Batia no lugar certo.

H_ Mas cifrado?

MJ_ É.

H_ Através de metáforas.

MJ_ Era. Mas nessa oportunidade aqui eu quero agradecer primeiramente a minha família, os meus primeiros mestres que foram meus pais né.

H_ pede pra começar o agradecimento de novo.

MJ_ Bom, nessa oportunidade eu quero primeiro agradecer aos meus pais, aos meus tios, às pessoas que colaboraram comigo, eu acho que mesmo que inconscientemente né, por eu tá ali confiando, acompanhando né, e eles ter me dado essa confiança de poder acompanhar. O meu avô José Epitácio. O meu pai Manoel Lima. A minha mãe, faleceu agora aos noventa e sete anos uma semana antes ainda cantando samba né. (silência). Dona chica boa como era chamada, Francisca Lima. Ao Quadrado não posso deixar de agradecer né. O mestre Rimun. O mestre Manteguinha. A mestra Aurinda. A mestra Nenete que é a minha irmã, eu sou como se fosse um filho dela né. Então agradecer essas pessoas ai que carregam a cultura com tanto amor, com tanta dedicação. E sem essa preocupação de sucesso, de dinheiro, de fama. Que na real isso não tem nada a ver com a cultura popular né.

H_ Mas é isso que o senhor queria fazer mestre, falar dessa…

MJ_ É sim.

H_ Volta a falar dessa questão do sucesso, dentro da capuêra assim. Você acha que as pessoas…

MJ_ O sucesso é uma coisa que é ilusória né. É ilusória. O sucesso não tem consistência né. Até porque eu conheço casos e mais casos de pessoas que teve aquele sucesso de um ano, dois anos, dois, três carnavais. E quando isso acaba, o que é que vem atrás disso? Depressão. Depressão, porque é como se fosse um copo descartável.

H_ Mas como é na capuêra isso?

MJ_ A capuêra tem muito isso né, de correr atrás da fama, do sucesso. E a capuêra por ser uma coisa popular, por ela ter uma outra linha. Porque ela pode ter várias linhas mas ela tem uma linha de raciocínio né, que vem desde lá do surgimento dela, de como surgiu e porque surgiu. Entendeu. Pra que que surgiu? Porque que surgiu? E as pessoas na maioria das vezes esquece isso né. Pelo menos na capuêra angola, e a coisa vira moda. E quando vira moda é um perigo né. Moda não tem nenhuma consistência. Moda é uma coisa que vem, mas, do mesmo jeito que vem vai né. E na cultura popular é perseverar sem essa preocupação de que vou ganhar dinheiro, por que é ilusório. De que vou ser famoso. De que vou ser um grande pop star. Não existe isso.

H_ O mestre e tem alguma coisa específica que o senhor possa dizer que é característica… Não gosto dessa palavra… Mas como é que é o samba de roda de Itaparica? Sobretudo ali na Gambôa. Fala pra gente. Tem alguma coisa que é só de vocês.

MJ_ O samba de roda, ele na Gambôa sempre foi dividido em duas partes. Os mais antigos, que vem ai do Quadrado, do Bitonha. Bitonha foi pai do Quadrado e mestre de capuêra do Quadrado, entendeu. Do Bitonha. Do finado Nadinho. Do finado Aládio. Saudoso! Finado não. Esses homens tão vivos né. Saudoso Nadinho. Saudoso Aládio. Esse povo é quem trouxe, é quem manteve todo esse ritual do samba chula, né,  durante esses anos todos. E tem uma outra parte. É a juventude que vem com o samba corrido, entendeu. Você não tem que seguir regra nenhuma, disciplina nenhuma, norma nenhuma. Do jeito que vai, vai, entendeu. Faz parte? Faz parte. Mas a gente não pode perder a essência. Que a essência não tá nesse samba. Esse samba é uma vertente do samba chula.

H_ Quando começou o samba corrido?

MJ_ A, isso desde… Eles surgiram quase a mesma época né. Porque eles se dão na polaridade né. Uma coisa e outra, uma coisa e outra, uma coisa e outra, uma coisa… Porque cria uma discussão né. Mas qual que é melhor? Qual que é pior? Eu não gosto de samba chula. Porque a gente fica esperando a pessoa cantar, e. Entendeu. O samba chula pra mim é um grande ritual né.

H_ E ele tem pergunta e resposta? Ele é mais próximo de uma demanda?

MJ_ Tem pergunta e resposta.

H_ Fala um pouco sobre a demanda.

MJ_ Pode ser dois puxadores né. Um mandou a chula, o outro responde. Depois aquele que respondeu manda e o outro responde. E fica naquela conversação né.

H_ E a linguagem como é que é? É cifrada, é metáfora?

MJ_ Sempre metáfora. Você não vai entender de cara o que eles querem dizer.

H_ O senhor pode dar um exemplo de uma pergunta e resposta?

MJ_ E ai a coisa, a coisa não… Não fica sem sentido né, quando ela não tem essa parte metáfora. Uma coisa que você, a pessoa já falou e você entendeu. Que não fez você pensar, que não fez você refletir. Por exemplo essa chula que eu cantei. Ela tem um significado, entendeu. E as vezes depende de tempo, pra pessoa chegar no que a pessoa quer dizer né. E esse mundo imediatista que a gente vive hoje, da correria. Então tira completamente a pessoa de levar um tempo pra tentar entender as coisas como funcionam né. A chula, uma ladainha, um improviso no corrido né. Porque as pessoas não brigavam com a outra. “Ô fulano, você tá fazendo algo errado”. Era mandado aqui ói. Musicado. Te dava a letra musicado, que você não tava seguindo a linha do negócio. E hoje a gente vê, de repente, as pessoas dar esporro no outro. Isso não tem nada a ver com a cultura. A mensagem ela é musicada, você manda o recado musicado. Você puxa a orelha musicado. E isso, infelizmente, tá se perdendo. Ai a pessoa vem… por questão de hierarquia. A hierarquia não é uma coisa imposta, é um processo natural das coisas né. As pessoas te respeitam porque você já vem a não sei quantos anos e tem conhecimento daquilo né. E as pessoas passam a te respeitar. Mas quando você age de forma fora de contexto, de chamar a alguém a atenção em público. Você tá completamente fora do contexto da cultura popular. A cultura popular tem o seu jeito de educar e de disciplinar. Quando a gente perde isso, a gente tá completamente fora. E isso tá perdido, principalmente na capuêra isso tá perdido né.

H_ Mas então lá na Gambôa, que é lá em Itaparica, tinha o ritual então onde o samba chula…

MJ_ Os jovens não participavam do samba chula por ignorância né. Por não entender. Eles querem uma coisa que de cara já sabe o que tá dizendo. E não é assim. A bíblia não é assim. A bíblia não é assim. A gente não vai de cara entender o que diz a bíblia.

H_ Mas quando que era feito o samba chula, tinha alguma festa específica?

MJ_  São João, São Pedro, Santo Antônio, Ano novo. Uush. ai… O pau quebrava. Bonitinho. E você via o povo meio dividido né. Tinha algumas pessoas mais jovens que gostavam do samba chula e caiam no samba chula. Mas a maioria era os antigão lá.  Do outro lado tá o povo do corrido né.

H_ Mas os antigão tinham algum preparo pra ir pro samba chula? Alguma coisa espiritual? Alguma coisa assim que o senhor lembre?

MJ_ Sempre tem né. Sempre tem.

H_ E rolava demanda? O senhor sabe quando eu falo demanda o que que. O senhor conhece o jongo né!?

MJ_ Um pouquinho.

H_ Essa coisa de um verso o senhor vai e amarra o outro, e se o outro não souber te responder pode ficar meio…

MJ_ Ô. Mais tem. E como tem. Tem. Que isso é o gostoso né, do negócio. Isso é que faz o negócio ficar bom, ficar gostoso. E ai o jovem ele não tem paciência. Entendeu. E ele quer fazer do jeito dele.

H_ Mas ainda tem isso hoje lá na Gambôa? Ou essa coisa ninguém mais sabe fazer?

MJ_ Tem. O pessoal tão meio de canto mas sabem fazer ainda.

H_ Ah, os mais antigo?

MJ_ Sim. Sabem e como sabem.

H_ Mas tem uma coisa também que os seus alunos me falam que é essa questão com a relativa. Tem alguma coisa diferente lá em Itaparica com relação a forma de cantar, a forma das vozes?

MJ_ Tem.

H_ Como é que é o de vocês?

MJ_ Ah, o nosso você conhece.

H_ Mas quero que você fale, pra ficar registrado.

MJ_ A o relativo é uma coisa de parceria né, é uma coisa que depende de tempo. O negócio é que nem time de futebol né, precisa de tempo pra se entrosar né. É a mesma coisa né. Parelha é dupla e não pode ser diferente né. É uma coisa que precisa ser amadurecida, as pessoas precisam se conhecer. O Quadrado por exemplo. O Quadrado e o Mantega e o Rimum, hora um fazia a primeira a primeira voz, hora um fazia a segunda e vice-versa. Quando outro entrava, aquele que ficou que não está puxando tem o dever de fazer a segunda voz, entendeu. E isso continua. As pessoas pode dizer assim “ah, essas coisas não existem mais”. Não existe porque ele nem vê né. Ele nem vê. As coisas existem. As coisas tão ai. Agora é assim né, A Gambôa tá ali, a Ilhota tá logo em seguida, um quilômetro, um quilômetro e pouco mas você mas você vê que é completamente diferente o samba que se faz o samba que se faz na Gambôa com o samba da Ilhota. O samba de Cachoeira com o samba de Santo Amaro tão ali próximo mas é completamente diferente. Não tem como ser igual. Até porque tem a ver com a cultura de cada local né. Costumes diferentes. Tudo isso é trazido naquela hora. Não tem como ser igual.

H_ Mas o que que o senhor acha que o povo diz que o samba da Gamboa é diferente?

MJ_ Diferente não é ser melhor.

H_ É diferente que eu to perguntando.

MJ_ Mas é muito diferente do samba de Santo Amaro, do samba de Cachoeira, do samba do Recôncavo de um modo geral.

H_ Mas porque que o senhor acha isso?

MJ_ Tem um livreto do Edson Caneiro. Você já viu esse livro?

H_ Sim. Do samba de umbigada?

MJ_ Ele fala do samba da Gambôa. É um livro fininho. Tem  a Katharina Döring, eu não sei se você conhece. Que é uma musicóloga né, e ela e pesquisadora de samba né. Ela diz que é muito, mais  muito, muito diferente. Mas de muito destaque também, sem dúvida. Não é o melhor, ela não falou que é o melhor, mas tem uma coisa diferente.

H_ Mais alguma coisa que o senhor acha importante? Fala dos seus alunos, deixar uma mensagem pra eles?

MJ_ Agradecimento ai aos alunos né. A todas as pessoas que estão envolvidas nesse processo do cd, no processo da capuêra. E a gente continuar caminhando juntos. Sem pensar em fama. Sem pensar em dinheiro. Essas coisas não levam a gente muito longe. Tem outras coisas que levam a gente muito mais além. Se tiver de aparecer dinheiro, vai ser tão natural. E não é o dinheiro que faz a cultura. É a gente que faz a cultura. Com ou sem. Sem ou com. Mas é gratidão. Gratidão ai a Henry, a Marcio. Mas eu acho que é isso.

H_ Vamos fazer aquela pra terminar?

MJ_ Qual?

H_ O senhor que manda, uma despedida.

MJ_

Mandei selar meu cavalo

Na hora d’eu viajar

Peguei na mão da morena

Morena se pôs a chorar

Não chore não moreninha

Eu vou e torno a voltar

Me dê um aperto de mão

Para de mim se alembrar

Morena quando ti for me levar

Ê morena quando ti for me leva

Morena quando ti for me levar

Morena quando ti for me levar

 

 

MESTRE JAIME MAR GRANDE, em entrevista a Henry Durante por ocasião da produção do CD “Eu já canto a muito tempo”, Samba de Roda Paraguassu na Linha do Mar. Produção Paraguassu na Linha do Mar e Candombe Cultura e Arte – Projeto Acervo das Tradições, 2018.