O samba do Cururuquara é uma expressão coreográfico-musical de origem afro-brasileira, que reúne sambadores e sambadoras com os objetivos, sobretudo, de cultivar suas ancestralidades e praticar devoção a São Benedito, assim como também comemorar o fim da escravidão. De acordo com os relatos dos descendentes do antigo sambador Leandro Manoel de Oliveira, a primeira Festa do Cururuquara foi realizada no ano de 1888, após a Abolição da Escravatura, quando os negros, livres a partir daquele momento, foram à pequena capela de Santa Cruz existente no local e lá festejaram com seus bumbos por quatro dias e quatro noites. Em frente à capela foram plantadas quatro palmeiras, dando ao local o nome de Largo das Palmeiras, onde se realiza a festa anualmente, no dia 13 de maio ou data próxima.

 

O bairro do Cururuquara, pertencente a Santana do Parnaíba, concentrou parte do fluxo de mão de obra escravizada trazida para a região durante os séculos XVIII e XIX decorrente de fatores tais como o declínio das plantações de café do Vale do Paraíba Fluminense e Paulista e, anteriormente, das áreas produtoras de açúcar no Nordeste. Tais fatos, somados aos efeitos da Lei Eusébio de Queirós, de 1850, proibindo o ingresso de escravos no Brasil, fizeram aumentar o tráfico ilegal interno para as fazendas de café da região chamada de “Oeste paulista”, em cidades como Campinas, Piracicaba, Rio Claro, entre outras.

 

Como um dos resultados deste fluxo, temos a formação do chamado samba rural paulista, samba campineiro ou samba de bumbo, fruto da incorporação do bumbo, de origem ibérica, à musicalidade dos negros bantos, os quais adaptaram o modo de tocar o instrumento à rítmica africana, rica em síncopas e polirritmias.

 

Podemos ainda observar no Samba do Cururuquara elementos presentes em outros “batuques” – como foram denominadas pelos cronistas e viajantes coloniais certas celebrações intra-comunitárias em geral noturnas realizadas pelos negros nas senzalas, as quais, por meio da música, da dança e da linguagem por vezes cifrada dos cantos possibilitavam a diversão, o equilíbrio de forças espirituais e até mesmo a articulação de fugas. Os “pontos” (formas poético-musicais) do Samba do Cururuquara tratam de situações tais como saudação ao local, aos antepassados ou santos de devoção, disputas entre indivíduos ou grupos, diversão e despedida, sendo, neste sentido, análogos aos pontos de louvação, demanda, visaria e encerramento de outra expressão coreográfico-musical de comunidades negras do Sudeste brasileiro identificada como jongo.

 

Henry Durante

 

Fontes consultadas

Entrevista com Sr. Carmelino Eusébio de Jesus e dona Luiza Camargo de Jesus em 14/06/14

O PONTO de cultura Leandro Manoel de Oliveira e a preservação da cultura afro-brasileira em Santana de Parnaíba. Santana de Parnaíba, SP: Fundação EPROCAD, 2013

MANZATTI, Marcelo. Samba paulista, do centro cafeeiro à periferia do centro: estudo sobre o samba de bumbo ou samba rural paulista. São Paulo: PUC, 2005 (Dissertação de mestrado)