A Dança de São Gonçalo, antes mesmo de se arraigar no catolicismo popular brasileiro, já era utilizada pelo clero português para difundir os valores da religião entre a população. Assim como outros balés ambulatórios da tradição antiga, na Idade Média ela passa a ser realizada no interior das igrejas, enquanto que a corte lhe confere a codificação dos passos.

 

Comumente associado a curas, em particular à cura de problemas nas pernas, o santo violeiro também recebe pedidos de ajuda ao casamento das mulheres mais velhas. Conta-se que São Gonçalo tocava nos bordéis, para as prostitutas, para que, entretidas com a música, não pecassem. Por meio de versos, advertia as mulheres de que só ganhariam o reino dos Céus constituindo família, para que então procurassem o casamento. Ao despedir-se da festa, São Gonçalo entregava-as dinheiro, a fim de garantir-lhes o sustento necessário para manterem-se alguns dias sem necessitar voltar às casas de prostituição. Para que não se pensasse que se divertia com seu ato, São Gonçalo usava pregos nos sapatos enquanto tocava, penitência que durava a noite inteira.

 

É também atribuído a São Gonçalo o desenvolvimento de Amarante, até então um pequeno e pobre vilarejo pertencente ao distrito do Porto, região Norte de Portugal, dividido pelo rio Tâmega. Ao retornar cansado de peregrinação ao Oriente, por volta do ano de 1.250, São Gonçalo teria decidido construir um convento dominicano para descansar. A fim de escolher o local, deixou cair o seu cajado e, após recusar duas vezes a indicação, na direção em que o objeto tombou pela terceira vez, decidiu fixar-se. Graças ao seu trabalho ergueu também a ponte que uniu os dois extremos do povoado, ao que se seguiu um período de fertilidade ao local, fazendo atribuir-se ao santo a fama de ajudar nas questões da fertilidade feminina. Em Portugal, nas festas em sua homenagem, as mulheres costumam vender bolos chamados “testículos de São Gonçalo”. Aquelas que desejam ter filhos dirigem-se ao mausoléu no qual se encontra seu corpo e procuram tocar o cajado de sua imagem, além de depositar ali, em oferenda, seios e pernas de cera.

Os praticantes da Dança de São Gonçalo, no Brasil, a consideram uma dança religiosa, devendo sua execução ser cercada de muito respeito.

Henry Durante

Dança de pares de origem portuguesa, em louvor a São Gonçalo do Amarante, organizada geralmente em pagamento de promessa ou voto de devoção. Em frente ao altar com a imagem do santo, formam-se duas fileiras, podendo ser de mulheres, de homens ou de homens e mulheres, encabeçadas por dois violeiros – mestre e contramestre. A dança é dividida em partes ou jornadas. Os dançarinos se alternam cantando a uma só voz e fazendo movimentos para a esquerda e para a direita. No final, podem formar uma roda em que o promesseiro dança segurando a imagem do santo retirada do altar, ou, no caso de haver apenas uma imagem para vários promesseiros, o santo vai passando de mão em mão. Em Laranjeiras, Sergipe, o fecho é dado pela chula-de-encerramento, com as duas fileiras, ora se aproximando, ora se afastando, chegando diante do altar, onde todos se ajoelham, fazem vênia e dão por encerrada a dança.

 

Fonte: CNFCP – Autor: São Gonçalo da Mussuca, 1976